Nada o bruto monte na casa inconsciente, revolve-se a terra, plantam-se os bolbos, admiram-se as estrelas, esquecem-se os castigos e todas as novidades no prelo. Horas de carro nas paisagens interiores, o rio a acompanhar. A revolta agora é feita com as mãos no volante, conhecer todos os caminhos e cair sobre a sombra da serra. Perceber o corpo sinuoso desta terra, ocupar o belmonte e a linha d’água. Dormir atrás de ruínas com os bancos para baixo, sossegar os antepassados. E, enquanto nos revolvemos nas suas campa, sabemos que sem sombra de passado não se chega aos 220km/h.

Rm


ao movimento da noite
o balaústre da comédia
o canto das tábuas noturnas
e rafeiro que ladra

encosto-me assim ao mármore
inclinado sobre um pavimento britado
ao longe passos furtívos
vozes sussurradas
risos contidos

deste lado da solidão
                                   a arder
                                   a esbracejar

a enferrujar-me as feridas

temo que por dentro já tudo esteja incompreensível
sintagmas internos
copas de árvores
silvos crepusculares

nada dorme
mas tudo é sono

o horizonte ítrio
(tingido de um metal pesado que me há-de custar a vida)
já não contempla passos de amantes
e ao alçar a perna sobre o parapeito
alcanço todo o ventre intacto do mundo
descalço
              sem nada


o voo estrídulo e rasante da melancolia



Ricardo M.












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Novamente junto ao rio, desta vez com o corpo mais velho, mais inclinado para o chão como se um pequeno receptáculo de vidro se tivesse quebrado e dele caíssem todos os sonhos de mercúrio. Pode sempre dizer-se que não vale a pena, mas quando se fala para dentro é fácil morrer-se de repente. Pode-se assumir, num ápice, que tudo não passa de um equívoco que tem tanto de medíocre como de medonho. Quando se fala para dentro pode morrer-se tantas vezes que se acaba por desaparecer sob a intransigente memória de nunca ter refeito o caminho pra casa.

*

as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
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com toda a vida às avessas a arder num quarto só “ 
A.R.Rosa

*

Estando imóvel, o homem, desconfia do vento. Sabe que ao passar da tempestade tudo arde. É verão. A planície composta de uma vegetação rasa deixa-o ver além do seu pedaço de terra. O carro passa na nacional e acerca-se da cidade. O estrondo do sol no pasto dourado e seco faz-lhe água na boca.

r marques